segunda-feira, 12 de julho de 2010

Paisagem cultural, patrimônio e projeto

Vê-se uma mulher encurvada sentada à beira de uma encosta de pedras. Sozinha. Aparenta ser bastante jovem e bela. As mãos juntas apóiam o seu rosto e não poderíamos afirmar se reza ou medita algum dissabor. A mulher parece muito pequena e frágil diante da imensidão da natureza que se abre atrás dela. Um vento forte agita as árvores e é possível que a mulher se encolha assim sentada para que sua saia longa não voe com o vento. Estranhamente, o vento não fustiga suas vestes e parece inconcebível que o chapéu pequeno que traz na cabeça não tenha voado para longe com aquela ventania toda. A mulher, misteriosamente, parece não integrar aquela cena, ou então, está como que pregada àquelas pedras que também não se abalam com o vento forte. Pode-se ouvir, na imaginação, o assovio da ventania que faz as árvores vergarem sob a sua passagem, dançando de um lado para outro. As nuvens cinzentas no céu não têm forma: são riscos apenas. Por elas o vento também deixou a sua marca, como o fizera nas árvores e na vegetação rasteira daquela encosta, diferente da mulher bem composta sentada à beira do caminho inabalada pela ventania. Por trás das árvores chicoteadas pelo vento uma construção se eleva e poderia ser uma igreja ou a casa daquela mulher, não saberia dizer, pois a edificação deixa-se ver como um vulto de costas para a cena principal, sugerindo que ali, a partir dela, comece uma pequena vila. Estas são apenas suposições, o que é evidente é o vento, as árvores balançando furiosamente, as nuvens cinzas fustigadas anunciando, quem sabe, uma tempestade que se aproxima. Nunca saberemos dizer ao certo o que fazia ali sozinha aquela jovem mulher e se a tempestade de fato desabou ou foi varrida para longe com a ventania. Apenas esta imagem ficou congelada nas páginas do tempo.

A cena descrita é de uma tela de Antônio Parreiras (1860-1937), pintada em 1888, denominada pelo autor de “Paisagem (Ventania)”. Compõe o acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo e faz parte de uma exposição permanente onde se juntam a ela outras telas de “Paisagem” do próprio Antônio Parreiras e de outros pintores que se dedicaram à temática, como Benedito Calixto. Antônio Parreiras foi aluno do pintor alemão Georg Grimm, na Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro. Grimm chegou ao Brasil em 1878 para lecionar na Academia Imperial. Ali, o artista alemão ministrou a disciplina “Paisagem, flores e animais” e formou um grupo que ficou conhecido como “Grupo Grimm”, que se dedicava à pintura de “paisagem”, fora da sala de aula, que deveria levar para as telas sentimentos e emoções, de acordo com o estilo romântico disseminado à época.

Antonio Parreiras (1860-1937). Título da tela: Paisagem (Ventania). 1888, Óleo sobre tela, 100 x 150cm. Acervo: Pinacoteca do Estado de São Paulo

Este é o trecho de abertura do artigo que apresentarei no 1º Colóquio Ibero-Americano Paisagem cultural, patrimônio e projeto: Desafios e perspectivas, intitulado: "A Paisagem na cidade: os jardins históricos no território das Gerais". Para a programação completa do Colóquio e informações sobre participação neste site: http://www.forumpatrimonio.com.br/paisagem/.
O Colóquio acontecerá em Belo Horizonte, no período de 09 a 12 de agosto de 2010.

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