domingo, 25 de julho de 2010

Brás Martins da Costa: um olhar para a diversidade


"Vai-me guiando Brás Martins da Costa,
sutil latinista, fotógrafo amador.
Repórter certeiro, preservador da vida em movimento.

Vai me levando ao patamar das casas,
ao varandão das fazendas,
ao ínvio das ladeiras,
à presença patriarcal de Seu Antônio Camilo,
à ronha política de seu Zé Batista,
ao semblante nobre do Dr. Ciriry,
às invenções de Chico Zuzuna, aos garotos descalços de chapéu,
a todo o aéreo panorama da serra e vale e passado e sigilo que pousa, intato, no retrato.

A fotoviagem continua ontem-sempre, mato adentro.
Imagem, vida última dos seres."

Carlos Drummond de Andrade

Este poema de Drummond, escrito especialmente para o livro de fotografias 'No Tempo do Mato Dentro', publicado em 1987 por Altamir José de Barros e Robinson Damasceno, instiga-nos a passear pelas imagens deixadas pelo fotógrafo itabirano Brás Martins da Costa. Contudo, antes de empreender uma viagem imaginária através das imagens capturadas por Brás é importante fazer um atalho e caminhar pela história da fotografia e do próprio fotógrafo.

O surgimento da fotografia foi atribuído, pela Academia de Ciências de Paris, a Louis Jacques Mandé Daguerre, em 19 de agosto de 1839. Desde o surgimento, o interesse do Brasil em relação à fotografia foi grande, principalmente por causa da conhecida paixão de nosso mais ilustre admirador da técnica de captar fragmentos da realidade em imagens: o Imperador Dom Pedro II. Após assumir o trono, em 1840, ele fez com que a técnica daguerreotipista fosse difundida no Brasil, logo após o seu surgimento na França.

Walter Benjamin escreveu que a fotografia possui “aura” e que essa aura é conferida pelo tempo, transformando a imagem em mágica. A fotografia faz ver o que deixou de existir pela ação do tempo. Quanto mais o tempo se distancia do que foi fotografado, mais essa aura será realçada, pois ela – a imagem – deixa de ser presente e passa a fazer parte das lembranças, da memória. A fotografia pode ser guardada junto ao peito, colocada num porta-retrato, exibida em álbuns, o que não pode ser feito com o real que se deixou fotografar. Como se a imagem pudesse ser possuída por quem a flagrou, diferente do real que é mutável, intangível.

Na Itabira do Mato Dentro do final do século XIX, a arte-ciência fotográfica cativou a admiração do curioso Brás Martins da Costa, instigando-o a fazer dela sua mais destacada profissão.

Brás Martins da Costa, personagem no mínimo intrigante, guia-nos através de suas fotografias pela Itabira do Mato Dentro entre os anos de 1895 e 1915. No município, era conhecido como “Tio Brás” e tornou-se lendário por causa de sua paixão pela fotografia.

Era filho de Guarda-Mor Custódio Martins da Costa e de dona Anna Cândida Teixeira da Motta, pertencentes à tradicional família itabirana. Brás nasceu em 1866, na Fazenda do Rosário, no município de Bom Jesus do Amparo. Contudo, viveu a maior parte de sua vida em Itabira. A residência onde morou, um casarão de estilo colonial, transformou-se hoje em Museu, denominado “Casa do Brás”.

As notícias e anúncios veiculados no jornal local Correio de Itabira (órgão oficial da Câmara Municipal) entre os anos de 1901 e 1903, permitem avaliar a diversidade das atividades exercidas por ele. Além de leitor voraz de livros clássicos, era também colecionador e vendedor de diversos títulos e gêneros. Possuía conhecimentos de vários idiomas, principalmente do latim, que para ele não tinha segredos. Falava, também, grego, alemão, inglês, francês e esperanto[1]. No dia 13 de janeiro de 1901 foi publicada uma nota no mesmo jornal comunicando que ele tomara posse como Juiz de Paz no município. Além das atividades já mencionadas era revendedor de relógios da marca The United Watch & Jewellery Company Ltda.

Em 29 de setembro de 1901 foi nomeado diretor-redator do mencionado jornal, cumulativamente ao seu cargo de chefe das oficinas da mesma imprensa. Foi, ainda, vereador, escrivão, inspetor de ensino secundário e sócio-diretor da Fábrica de Tecidos da Gabiroba. Era casado com dona Regina Martins da Costa, com quem teve oito filhos.

A técnica fotográfica utilizada por Brás foi o processo positivo/negativo de produção baseada no negativo de vidro e no papel albuminado. Essa técnica compreendia o negativo de vidro (placa úmida), tendo o colódio como ligante e a albumina – clara de ovo – como fixadora da imagem sobre o papel. O negativo em vidro possibilitou a reprodução de número ilimitado de cópias a partir daquele único registro original, o que não era possível com o processo anterior, da daguerreotipia.

Apesar do vasto currículo e da diversidade de atividades exercidas por Brás, cabe-nos um questionamento: quem foi o fotógrafo Brás Martins da Costa? Sabemos que o homem Brás foi jornalista, professor, vendedor, bibliófilo, político e empresário. Entretanto, quem foi o fotógrafo? Que olhar e inquietações o motivaram a retratar mais de quinhentas cenas de seu município, algumas em estúdio e outras ao ar livre, em chapas de vidro?

Peter Burke escreveu que “historiadores, da mesma forma que fotógrafos, selecionam quais aspectos do mundo real vão retratar”[2]. Dessa forma, as perguntas acima se fazem pertinentes ao pensar no fotógrafo como alguém que tem o poder seletivo de captar com sua câmara e deixar para a posteridade frações do que se pretende real, dado que as cenas passadas deixaram de existir, restando apenas a fotografia, a imagem presa ao suporte – papel, vidro, etc.

Ao analisar parte do acervo de Brás publicado no livro ‘No Tempo do Mato Dentro’, percebemos a diversidade de suas fotografias. O olhar do fotógrafo dirigia-se tanto para a paisagem urbana, quanto para os que se apresentavam em seu estúdio em busca de uma imagem refletida no papel. Vemos, ainda, que ele fotografava autoridades locais com a mesma freqüência com que direcionava sua câmera às pessoas comuns, aos pobres e operários. Neste livro de fotografias, encontramos desde um descontraído grupo de homens e meninos brincando sorridentes às margens de um riacho até o Batalhão da Guarda Nacional, perfeitamente alinhado, vestido e empunhando suas armas.

A fotografia mais conhecida de Brás é a do poeta Carlos Drummond de Andrade aos dois anos de idade. Entretanto, não foi privilégio do poeta ser fotografado por Brás, várias outras crianças, inclusive os filhos do fotógrafo, tiveram o semblante infantil eternizados por sua lente na mesma postura e com o mesmo brinquedo ao fundo, o que provavelmente queria demonstrar o aspecto lúdico da foto, relacionando a criança ao brinquedo, aliados aos signos do que era considerado moderno no período, como a roda. Peter Burke analisa a cena montada em que os acessórios representados junto com os modelos reforçavam a auto-representação. As fotografias do final do século XIX e início do XX deixaram de ser apenas registros dos fotografados, mas passaram a simbolizar a sua época.

Brás faleceu em 1937, vítima de uma síncope cardíaca. Contudo, o seu legado para Itabira é incontestável. Por meio de suas fotografias, percebemos traços da forte religiosidade da sociedade itabirana; o estilo colonial de suas casas; o recorte sinuoso de sua geografia, com a cidade velada pelo Pico do Cauê, que hoje não existe mais; o sono eterno de seus “anjinhos”; o olhar recatado e melancólico de suas mulheres por trás de seus longos vestidos; o assombro das crianças diante da câmera; a naturalidade no sorriso dos filhos do fotógrafo; os tropeiros com seus burros, arreios, selas e cilhões; a cidade em construção; as varandas das fazendas em dias de festa; entre muitas outras cenas.

Se, buscando inspiração novamente em Drummond e seu poema Resíduo, “fica sempre um pouco de tudo”, das fotografias de Brás fica-nos o convite para adentrar no passado que se deixa entrever através de suas imagens e a cada novo olhar admirarmos rostos e paisagens que não existem mais.


[1] Língua artificial, criada pelo médico e estudioso de línguas polonês Ludwig Lazar Zamenhof (1859-1917), por volta de 1887, para ser língua de comunicação internacional [Possui gramática muito simples e regular e utiliza as raízes das línguas européias mais faladas, além de raízes latinas e gregas.] Fonte: Dicionário Houaiss.

[2] BURKE, Testemunha Ocular: História e Imagem. Bauru, SP, 2004. p. 27.

Autorretrato de Brás Martins da Costa e o poeta Carlos Drummond de Andrade aos 2 anos de idade. Itabira, 1904.

Foi possível escrever este artigo por causa da gentileza do sobrinho neto do fotógrafo, Altamir José de Barros, que cedeu para consulta parte dos negativos de Brás Martins da Costa. Altamir José de Barros é o responsável pelo acervo de negativos em vidro do fotógrafo itabirano.

Bibliografia

BARROS, Altamir José de; DAMASCENO, Robinson dos Reis (coords.). No Tempo do Mato Dentro. Belo Horizonte, Fundação João Pinheiro, s/d.

BENJAMIN, Walter. Pequena História da Fotografia. In: Obras escolhidas, vol. 1 - Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre a literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994, pp. 91-107.

BORGES, Maria Eliza Linhares. História & Fotografia. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. (Coleção História &... Reflexões, 4).

BURKE, Peter. Testemunha Ocular: História e Imagem. Bauru, SP: EDUSC, 2004.

Coleção do jornal Correio de Itabira. Itabira: Typografia Oficial, 1901 a 1903. Acervo Particular de Altamir Barros.

KOSSOY, Boris. Fotografia & História. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.

Publicado em:

MAGALHÃES, Cristiane Maria. Brás Martins da Costa: um olhar para a diversidade. Jornal Diário de Itabira, Itabira MG, p. 03. 09 dezembro 2007. Ano XIV, nº 3914.

3 comentários:

Simone Huck disse...

Olá Cristiane. Obrigada pela sua visita e comentário. Realmente a fotografia tem o "peso" de documentar e ao mesmo tempo, transmitir exatamente a vida de um local. Consigo as vezes, através das fotografias, sentir o cheiro, o gosto, ouvir as pessoas daquela imagem !! Isso é tudo !!!
Um beijo.
Simone

Simone Huck disse...

Olá Cristiane. Obrigada pela sua visita e comentário. Realmente a fotografia tem o "peso" de documentar e ao mesmo tempo, transmitir exatamente a vida de um local. Consigo as vezes, através das fotografias, sentir o cheiro, o gosto, ouvir as pessoas daquela imagem !! Isso é tudo !!!
Um beijo.
Simone

Anônimo disse...

Interesting blog if you ask me. Thank u for posting that information.

Joseph Torson
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