segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Há sustos lá dentro

Recentemente escrevi um post contando sobre a minha mais nova paixão literária: José Luis Peixoto. De fato, o jovem romancista e poeta português não me decepcionou. Comprei logo três livros dele e comecei a ler sofregamente. Escolhi aleatoriamente começar por “Nenhum olhar”. O livro tem tanta figura de linguagem, tanta beleza nas descrições que eu me apaixonava a cada página. Fiquei um pouco perdida com o final, mas refleti: “que outro final poderia ter um livro tão surreal?”. Muito bom!

“Cemitério de Pianos” eu não li, engoli! Estava em Pernambuco e nesta segunda etapa dos trabalhos não tivemos folga. Trabalhamos todos os dias até muito tarde e, também, nos finais de semana. Apenas aos domingos ficava estirada próxima ao ar condicionado do hotel naquele calor infernal de Recife, recarregando as baterias para recomeçar a semana agitada. Então, os únicos horários disponíveis eram os domingos e antes de dormir. Muitas noites eu brigava com o sono e teimava em ler e no outro dia tinha que recomeçar da página anterior, pois não tinha conseguido captar todas as nuances daqueles trechos lidos em disputa com o sono.

“Cemitério de pianos” é um livro impressionante! Amei cada página, cada sequencia narrativa, cada figura de linguagem, cada suspiro dos personagens, cada viagem no interior dos protagonistas, em cada passada do corredor Lázaro eu corria junto, enxugava as suas gotas de suor, vibrava a cada quilômetro percorrido na memória.

O que é mais marcante em José Luis Peixoto é sua originalidade. O autor não se parece com nada que eu tenha lido. Ele criou uma narrativa própria, assim como fez Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Virgínia Woolf, entre tantos outros. Comparo-o a estes autores em termos de originalidade e não de estilo, porque são completamente diferentes. Interessante que o escritor se coloca nos seus livros – numa metalinguagem criativa. Em “Nenhum olhar“ ele é o escritor que escreve infinitamente, como se a cada nova página os acontecimentos da pequena Vila se sucedessem. Já em “Cemitério de Pianos” ele coloca uma criança para dialogar com o protagonista a respeito da escrita do livro. Outra característica que observei é que sempre tem um personagem atemporal, que não envelhece, não morre. Em “Nenhum Olhar” este personagem é o velho Gabriel, em “Cemitério de Pianos” é o afinador de pianos cego. Outra constante em sua narrativa é a morte.

A narrativa de José Luis Peixoto é árida, terrivelmente humana. Quem gosta de livros americanos, sinto muito, não vai gostar de José Luis Peixoto. Seu foco é o ser humano, com toda a sua crueldade e sadismo, com muitos silêncios e conflitos, com tédios e mentiras, com traições e inquietações, mas com uma ternura tão grande a ser distribuída, mas que não conhecem uma forma de a exprimir. Esta ternura que só existe do lado de dentro dos seus personagens é angustiante. Dá vontade de ir lá, entrar na história e fazer os personagens agir diferente. A narrativa de José Luis Peixoto não obedece a nenhuma lógica temporal ou genealógica. Quem espera livros lógicos e com finais felizes não vai encontrar nada disto nas histórias dele. Os romances de José Luis Peixoto são poesia pura.

Nestes dois livros que citei os personagens não dialogam, não se tocam fisicamente, apenas com o olhar. É o olhar que diz o que as palavras se calam, é o olhar que beija, que abraça, que segura nas mãos.

Desde que retornei de Pernambuco estou lendo “Uma casa na escuridão” e tenho que confessar: o livro é chato. Não é ruim, é chato. Não consigo adiantar a leitura. Estou entre a página 70 e 73 há quase uma semana... Não vou dizer que me decepcionei com José Luis Peixoto porque só “Cemitério de pianos” já valeria para colocá-lo entre os melhores escritores deste insipiente século XXI. A escrita dele continua boa, há passagens lindas como esta: “As estrelas espalhadas, as nuvens a passarem como pessoas tristes, o céu da noite sem lua (...)”. Acho que é o mote da história que é fraco.

Ainda faltam cinco romances dele para eu ler, até lá poderei ter um diagnóstico mais completo do conjunto da obra do autor. Fico impressionada como alguém com 35 anos já tenha escrito 8 romances, 3 livros de poesia, 3 peças de teatro e 2 letras de música. Tragetória literária invejável.

Vou deixar que o próprio autor recite parte do livro: “Cemitério de pianos”, uma parte que eu gosto particularmente. Clique aqui.

O cemitério de pianos. A minha mãe evitava falar dessa divisão fechada da oficina. Se o fazia, dizia sempre que não havia lá nada que me interessasse. Quando essa explicação deixou de ser suficiente, falou-me de sustos. Disse:
- Há sustos lá dentro.”
(...)

“No entardecer do dia seguinte, depois do trabalho, era o fresco de junho, e espalhei essa graxa especial por todo o corpo. Não levei o relógio, mas tive a certeza que corri muito mais depressa. As pernas deslizaram mais depressa no ar. Não precisei beber tanta água porque não transpirei. Fiquei mais forte.”


Em tempo: "Uma casa na escuridão" não é chato. É um dos livros mais terríveis que li. Hora de dar um tempo em "Zé" Luis Peixoto, preciso de ares mais leves, como o de Ítalo Calvino, talvez.

1 comentários:

Ana Lucia disse...

Hmm, sugestão anotada... eu bem precisava de livros de outros ares!