quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Belém do Pará

Estou em Belém desde domingo (27/09), mas ando cansada demais para relatar o que tenho observado e vivenciado por aqui. Falarei rapidamente e vou colocar umas imagens de coisas interessantes que vi.

Gostei de Belém, principalmente da arquitetura da cidade que é muito interessante. A cidade inteira mescla o antigo e o novo e muitas vezes descendo pelas vielas tenho a sensação de estar em Salvador. De repente, no meio de um dos inúmeros becos me deparo com uma igreja barroca exuberante ao lado de casas ecléticas, modernas, casebres, etc.

Mas a pobreza da cidade é que o grita aos olhos e causa uma sensação ininterrupta de insegurança. Caminho olhando para todos os lados, amedrontada. Pedintes e mendigos aparecem constantemente abordando para pedir dinheiro, comida e outros. Estou até começando a acostumar que quando parar no ponto de ônibus virão uns 3, 4 pedir dinheiro.

Outro dia, voltando das pesquisas, parei numa lanchonete próxima ao hotel para fazer um lanche rápido ao final de um dia intenso de trabalho e aconteceu algo extremamente constrangedor. Na mesa ao meu lado tinha um casal também fazendo um lanche, quando o casal levantou um rapaz imundo e nitidamente drogado apareceu do nada, sentou-se na mesa e começou a comer os restos do casal. Foi uma cena horrível. Parecia um animal assustado fuçando o lixo, comendo com as mãos imundas e olhando para os lados com raiva. Não sabia se eu saía, se ficava, se continuava comendo, se parava. Constrangedor.

Num outro bairro da cidade, voltando da UFPA, vi um canal fétido correndo a céu aberto por onde passa o esgoto, as pessoas jogam lixo e moram ali do lado dele. Em alguns pontos deste canal há tapumes de madeira, como as que tem nas palafitas, e por cima do canal as pessoas moram e vendem comidas. No canal, há muito lixo entulhado também. Fiquei pensando quem teria coragem de comer naqueles ‘restaurantes’ ao lado do esgoto. Claro, as pessoas que vivem ali. Aliás, Belém é uma cidade suja, muito suja. As pessoas jogam o lixo nas ruas despudoradamente. Outro dia encontrei o historiador Serge Gruzinski numa palestra e conversando com ele sobre Belém, ele disse que acontece aqui um mundo à parte, como se nada que acontecesse no resto do Brasil interferisse em Belém e vice e versa. Práticas do século XIX, como esta questão da falta de higiene, convivem ao lado de outras completamente antenadas com o século XXI.

Outro fato que tem me feito pensar seriamente é que devo ter um carma a purgar em relação a grandes festas populares. Em março estava em Salvador justamente antes do Carnaval. A cidade estava uma loucura, com gente, engarrafamentos, só se falava, pensava e respirava Carnaval. Os locais de pesquisa fecharam uma semana antes do Carnaval e o que não fechou, como o Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, a diretora viajou e levou a chave do acervo iconográfico que eu tinha ido justamente pesquisar. Pois bem, aconteceu de novo. Estou em Belém exatamente antes do Círio de Nazaré. Os engarrafamentos são quilométricos. Hoje parte dos funcionários públicos foram dispensados para participar do início das celebrações do Círio e o atendimento nos acervos estava lento quase parando. Não sei como será na próxima semana para as pesquisas. Só se fala em Círio por aqui. A imagem da Santa está em todos os estabelecimentos, em todas as bibliotecas, em todos os arquivos. Uma loucura, parece Salvador antes do Carnaval... Bom, e eu detesto estes agrupamentos que deixam a cidade cheia, nervosa, os hotéis e restaurantes com preços exorbitantes. Deve ser carma, só pode.

Vale, ainda, um aviso aos pesquisadores de plantão: na biblioteca do Museu Emilio Goeldi – Campus Pesquisa não tem ar condicionado, mas já teve um dia, então, as janelas são lacradas. O lugar parece uma sauna, o suor escorre por dentro da roupa e das luvas e para beber água tem que dar a volta do lado de fora do prédio e ir para o outro bloco. Ao contrário, no Arquivo Público do Pará faz um frio danado! Saí de lá hoje com os dedos das mãos com câimbra e roxos. Amanhã levo blusa de frio para conseguir pesquisar. O acervo do APEP – Arquivo Público Estadual do Pará é imenso e a edificação e as prateleiras lindas. Seguramente é um dos arquivos mais bonitos em que pesquisei.

Pelo tamanho do meu cansaço hoje escrevi muito mais que esperava. Queria contar da exposição do corpo das moças daqui, mas estou esgotada, fica para outro dia. Vamos às imagens interessantes.

Deparei-me com este curioso aviso no banheiro feminino da Biblioteca Pública de Belém. Será que as moçoilas lavam os seu cabelos com aquele sabonetinho que fica ao lado da pia?


E encontrei este relato curioso nos Anais do Arquivo Público de Belém, a respeito dos índios que deveriam ser aprisionados no século XVII. Eles tinham duas escolhas: ou iam por bem ou iam por mal. Vejam.


E este é ainda mais curioso. Diz que uma índia teria vivido 200 anos! Esta imagem foi digitalizada do Ensaio Corográfico sobre a Província do Pará, escrito por Antonio Ladislau Monteiro Baena, em 1839. Em outros documentos li que muitos índios viviam até os 120 anos. Que coisa interessante.


p.s.: Vivi, se tiver erros no texto, por favor me avise!

1 comentários:

Ana Paula Sampaio disse...

Cris, que interessante viagem! A proibição de levar os cabelos na pia me fez rir muito! Qualquer dia preciso ir a Belém, cidade preferida do meu marido... Beijos!