Quando era criança, minha mãe contava a história de uma professora do seu tempo de adolescente que era chamada pelo codinome de DDD. Ela era considerada "doida" na pequena cidade onde cresci porque era intelectual e lia muito. E, porque lia muito, não se prendia aos padrões de comportamento social de uma cidade pequena do interior de Minas, onde a fofoca e as maldadezinhas cotidianas se fazem constantes - foi o que deduzi anos mais tarde. Minha mãe temia que eu ficasse doida também, já que lia bastante, e contava sobre esta antiga professora para eu parar de ler e ir ajudar nos afazeres domésticos.
Na contramão, eu continuei lendo sempre e muito. Hoje lembrei-me desta história e da minha mãe dizendo em diversas ocasiões vida afora: “você é doida, Cristiane”. Minhas irmãs também me acham meio maluca. Poderia estar em cima de um salto alto trabalhando para uma grande multinacional, com um carro estacionado na garagem de um prédio onde, talvez, morasse num apartamento meu. Mas eu escolhi – sim, é uma escolha deliberada – abrir mão destes desejos ‘pequeno burguês’ e estou bem aqui no meio do mundo, num estado brasileiro que muita gente nem sabe que existe, cercada por todos os lados de rios enormes e pela floresta amazônica – e feliz da vida fazendo o que gosto.
Mas foi numa aventura vivenciada neste final de semana que lembrei destas histórias todas e fiquei me perguntando se eu, de fato, não sou mesmo meio maluca. Como todos já sabem, estou no Amapá e como curiosa nata (no lugar de pés, devo ter nascido com asas) tentei, tentei e tentei conseguir uma programação para o final de semana que fosse segura, mas que me levasse para conhecer as inúmeras belezas naturais do estado, mas foi tudo em vão, não existe turismo dentro do estado do Amapá (falarei sobre isto com detalhes depois que for embora daqui, me aguardem). No sábado, conheci dois paraenses que estavam hospedados no mesmo hotel que eu e que me levaram para conhecer alguns lugares interessantes de Macapá, como a Fazendinha, que é bem parecida com uma praia, lá o rio Amazonas faz até umas ondinhas e a brisa e o barulho lembram muito o litoral. No lugar, comi o mais delicioso camarão no bafo que se pode fazer. É um lugar bem gostoso para ir para quem estiver por aqui.
Domingo seria um dia sem programação alguma. Um tanto quanto irritada com esta carência de turismo interno, saí do hotel por volta das 9:50 de chinelos havainas, bermuda, camiseta, o celular e um pouco de dinheiro no bolso para uma caminhada na orla do rio Amazonas. No trajeto, vi passar uma van com uma plaquinha: Macapá – Mazagão e pensei: é isto que vou fazer hoje! Lembrei que o pessoal do IPHAN havia dito sobre esta van e indicado este passeio. Corri até o estacionamento onde a van havia parado, fiz algumas perguntas ao motorista e parti com a van rumo à cidade de Mazagão. Como medida de segurança, assim que a van partiu de Macapá liguei para o meu marido junto com o motorista e informei para onde estava indo, o veículo que me levava e o nome do motorista, porque se acontecesse alguma coisa comigo ele saberia onde procurar e também para que o motorista soubesse que havia outra pessoa sabendo do meu paradeiro. Nunca se sabe. E lá fui eu, sozinha, para o interior do estado.
Para chegar a Mazagão é necessário cruzar dois rios de balsa: o Rio Matapi e o Vila Nova. Para mim que estava ‘desvendando’ o Amapá, achei super legal cruzar aqueles rios enormes com média de 11 metros de profundidade em cima de uma balsa, mas para quem precisa fazer o trajeto constantemente é muito cansativo. No trajeto, vi criações de búfalos, plantações de açaí, famílias ribeirinhas, muitas casas de madeira em cima de palafitas, conversei com crianças e moradores locais, além de ver de perto a floresta e os rios.
A viagem de ida foi ótima. O motorista da van, o sr. Lôro, como ele mesmo me disse que se chamava, foi um exímio guia de viagem, conversou o tempo inteiro e ia me apontando tudo. Ele que é de Santa Catarina, mas que mora no Amapá há 20 anos, foi me contando as histórias do lugar, mostrando as paisagens e, em uma das balsas, me fez saltar da balsa propriamente dita para o barco que fica acoplado à balsa e subir até a cabine do comandante para ver a paisagem lá do alto.
Bom, mas ao chegar a Mazagão por volta das 11:50 (tínhamos saído de Macapá às 10:00 exatamente), a van que sairia de volta para Macapá ao meio dia e que eu pretendia retornar nela, já tinha voltado. Eu teria que esperar sozinha até a próxima van, que sairia por volta das 14 horas. Quando o sr. Lôro partiu do ponto final, me deixando sozinha ali naquela cidade paupérrima e desconhecida, literalmente no meio do mundo, senti um frio na barriga. Olhei o celular e não tinha sinal. Foi neste momento de medo momentâneo que lembrei destas histórias que contei acima e fiquei me perguntando se eu, de fato, não seria mesmo maluca de sair sozinha, para o interior do estado, sem conhecer viv’alma. Se me acontecesse alguma coisa de ruim naquele ermo de mundo, dificilmente alguém daria conta disto, a não ser meu marido que está há mais de dois mil quilômetros de distância. Estava como naquela música “Deus e eu no sertão”. O interior do estado é conhecido como uma terra sem lei. Grande parte das pessoas que encontrei no caminho eram homens, vi poucas mulheres ou crianças no trajeto e na própria cidade de Mazagão. Como não tinha mesmo o que fazer a não ser esperar a próxima van, saí caminhando e fotografando a cidade. Conversei com alguns moradores locais, vi uma igrejinha linda da primeira metade do século XX que está abandonada, além da prefeitura instalada numa edificação relativamente antiga e quando estava indo comer alguma coisa, vi uma outra van passar na rua, saí correndo atrás dela balançando os braços, o motorista parou e perguntei se estava indo para Macapá, ele disse que sim e eu retornei com ele.
No caminho, ouvindo a conversa do motorista com outro homem que estava na van, soube que aquele era um transporte ‘não oficial’ e que o motorista que tinha sido denunciado, teria que resolver a situação da ilegalidade do transporte ainda esta semana. Esta foi uma parte ruim, porque voltei calada, com medo da van ser parada em alguma blitz (o que seria pouco provável) ou algo parecido e novamente fiquei pensando em como é complicado ser mulher e estar sozinha em situações como esta, por mais que digam o contrário uma mulher viajando sozinha nunca terá a mesma segurança que um homem – pelo menos não no Brasil. A parte boa, foi que o trajeto da van era diferente, passava pelo município de Santana e pelo Igarapé da Fortaleza, que eram outros locais que eu queria conhecer. No final deu tudo certo, cheguei de volta a Macapá por volta das 14 horas e no final da tarde ainda deu tempo de ver a maré cheia do rio Amazonas se arrebentando contra a mureta e o lindo pôr do sol do trapiche e da Fortaleza de São José.
Muito mais do que apenas conhecer pela aventura do lugar novo, eu vejo estas experiências de entrar em contato com o povo do lugar onde estou, de conhecer as suas dificuldades e hábitos diários, ouvir os sotaques, ver onde moram e o que comem, como parte do meu trabalho de pesquisadora. Tenho consciência que nunca vou ser uma historiadora de gabinete apenas. O campo é que faz meu coração bater mais forte. E são estas experiências que faz com que os meus textos tenham ‘alma’ e são elas que darão sentido a muitos dos levantamentos realizados nos acervos e museus que visitei em Macapá. Os ‘causos’ que escuto, a própria paisagem que vejo, os sons, os cheiros, os ofícios mostram de fato o que é a identidade deste povo e o que é construído pelos políticos e pela mídia.
No fundo, eu devo ser mesmo muito maluca, porque enquanto reportagens mostram as engenharias feitas pelas cidades como alternativas para guardar os veículos que se multiplicam assustadoramente, eu me pergunto porque as pessoas não param de fabricar carros e de fazer filhos que superlotam este mundo que está ficando pequeno para tanta gente e seus carros cuspidores de poluição.
2 comentários:
Eu viajo nas histórias da minha irmã!N sou cmo ela q ama viajar literalmente, mas amo ler suas viagens!Nesta de hoje, imaginei índios e selvagens!Ri de mim mesma qndo terminei de ler.Acho que li tantas estórias da amazônia sobre índios que pensei que a aventura dela seria com eles!Continue viajando e contando Cris...estarei aqui lendo e amando!!!Bjs
Que legal! Eu bem queria desvendar o que há de bom nesses confins do Brasil!!
Bjo!
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