sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Petrolina

Estou em Petrolina, às margens do Rio São Francisco. Do outro lado é Juazeiro - BA. Atravessei o Rio de balsa e fui lá do outro lado dar uma andada na cidade.

Gostei das duas. Petrolina é limpa. A catedral toda de pedra é muito bonita.
Fotos, só depois que eu voltar, porque agora é contagem regressiva para voltar para casa, afinal é Natal e eu aqui, sozinha, perdida no sertão do meu Brasil.

E sim, é quente, muito, muito quente. Enquanto chove torrencialmente no sudeste por aqui nem te ligo. É um sol de rachar. Parece outro país.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Garanhuns


Eu queria contar para a Marlene que estou indo para Garanhuns, cidade onde ela nasceu, e que desde que ela me contou histórias de lá com tanta ternura fiquei com muita vontade de conhecer a cidade. Quando as pessoas falam das suas cidades com carinho despertam nos outros sentimentos de bem querer. Eu tenho bem querer por Garanhuns sem nunca ter visto uma fotografia de lá. Amanhã eu saberei, amanhã saberei.


segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O espírito das cidades

Tem muito tempo que não escrevo aqui. Terminei um trabalho e emendei outro em seguida, então, todo o tempo que tenho tem sido para trabalhar, mas eu já disse que adoro o meu trabalho. Tem um texto sobre o espírito das cidades que estou ensaiando faz tempo, mas não saiu ainda. Resolvi postá-lo mesmo sem estar do meu total agrado, senão não posto nunca. Desculpem-me pelo texto estar assim 'mais ou menos', mas a inspiração tomou outro rumo nos últimos tempos.

O espírito das cidades

Costumo pensar que as cidades possuem um espírito próprio, assim como as pessoas. Cada pessoa é única e tem um jeito de ser e pensar. As cidades também. Tem gente que gostamos só de trocar o primeiro olhar. Outras demoram mais tempo para ganhar a nossa confiança e tem gente que não conseguimos gostar de jeito nenhum. Estas coisas fazem parte daquelas que não conseguimos explicar, só sentir.

Penso que as cidades também são assim. Cada uma delas tem o seu espírito. Cidades vizinhas podem ser completamente diferentes umas das outras. No Brasil, que possui dimensões enormes, mudar de estado é como mudar de país.

Este ano de 2009 viajei muito, estive em oito estados, entre eles: Sergipe, Alagoas, Bahia, Amapá, Pará, Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e, obviamente, Minas Gerais. No ano passado estive em Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo e Rio de Janeiro (novamente). Em cada um destes estados visitei pelo menos duas cidades diferentes, tirando Minas Gerais que apenas em 2009 fui a mais de 20 (que consigo lembrar rapidamente de cabeça).

Muitas vezes é traumática a chegada a uma cidade quando estou a trabalho. Geralmente chego sozinha e, de vez em quando, durante a noite e vou para lugares onde nunca imaginei ir e que não conheço viv’alma, como Macapá... Normalmente me locomovo nos ônibus municipais e são necessários alguns dias para me familiarizar com as ruas e a lógica do lugar. Por uma questão de ‘sobrevivência’ aprendi a criar rapidamente mapas mentais com pontos de referência para saber onde estou hospedada. Comumente na terceira vez que ando no mesmo ônibus com o mesmo trajeto eu sei onde descer sem confirmar com o cobrador. E acontece muito também de ir a um lugar pela primeira vez e pedir para o cobrador me avisar quando estiver chegando e ele se esquecer ou ficar papeando e se distrair e eu mesma ‘adivinhar’ lendo apenas as referências como nomes de ruas, prédios, etc. Entrar em um ônibus onde você não conhece absolutamente nada e ter que confiar nas pessoas que é ali mesmo que tem que descer é uma tarefa complicada.

Lembro que em Macapá a locomoção, fora o calor, foi uma das coisas que me deixou imensamente irritada. A maioria das ruas não tem indicação de nomes e, o pior, as pessoas não sabem, mas SEMPE dão informações. Claro, grande parte delas são informações equivocadas e eu ficava rodando, rodando, rodando até chegar ao destino. No segundo dia que estava lá ao retornar para o hotel a noite, depois do trabalho, perguntei a uma senhora só para confirmar se o hotel ficava realmente na rua posterior a que eu estava. Ela disse que não e que eu estava muito longe e falou tão enfaticamente que eu acreditei e segui para o lado oposto. Ao chegar a outra rua perguntei novamente e duas senhoras me indicaram outro lado completamente diferente. Resolvi seguir o meu instinto anterior e fiz o caminho de volta e cheguei ao hotel, não sem antes passar por uns minutos de pânico. No outro dia comprei um mapa da cidade (custou R$ 10,00) e passei a andar contando o número de ruas a partir daquela em que eu estava. Na semana seguinte eu é que dava informações sobre a cidade aos perdidos... Achava incrível como as pessoas de lá informavam mesmo quando não sabiam onde era o lugar. Ter um mapa da cidade em mãos é uma das primeiras coisas que faço ao chegar a uma nova cidade e em grande parte delas os mapas são distribuídos gratuitamente nos aeroportos e rodoviárias.

Quando se está num lugar completamente desconhecido é sempre mais fácil quando as pessoas são gentis e solícitas em fornecer informações. Isto faz toda a diferença e também interfere no tal espírito da cidade.

Sempre fico intrigada em entender o que faz de uma cidade agradável e outra não, já que todas são muito parecidas: ruas, carros, lojas, shoppings, bairros ricos, periferia, favelas, pontes e cada vez mais tenho certeza que tem a ver com coisas pequenas e intangíveis. Por exemplo, guardei por Aracajú um carinho imenso! E tenho certeza que foi por causa da receptividade das pessoas de lá e, particularmente, do técnico responsável pelo trabalho que nos recebeu como um verdadeiro anfitrião. Nos finais de semana nos levava para conhecer a cidade, os shows, os lugares interessantes, além de contar histórias do lugar. Isto serviu para eu ficar encantada com Aracajú, mesmo com aquele calor todo, e ter vontade de voltar.

Por Pernambuco eu me apaixonei de cara. No primeiro dia Recife tinha me cativado e acho que tem muito a ver com o lindo mar verde e azul da praia de Boa Viagem. O povo daqui também é muito gentil e sempre oferece informações e informações corretas...

Monumento Marco Zero de Recife e Olinda
Artesanato em Olinda e Praia da Boa Viagem em Recife

Praia da Boa Viagem

Tem mais fotos aqui, aqui e aqui.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Saga tenebrosa

Não que eu não tenha muitas histórias para contar. Tenho várias, mas está faltando tempo nos meus dias. Porém, vim aqui rapidamente contar da saga tenebrosa que tenho vivido nos últimos 5 dias.

Este é um post para quem procurar no google "mudança de oi para GVT", "mudança da Velox para GVT", "problemas com a GVT", "sobre a GVT", "tive problemas com a GVT", "qualidade da GVT".

Na semana passada resolvemos mudar nossa operadora de internet banda larga e telefone fixo que era da Oi para GVT. Parece que desde então TUDO deu errado. Não vou escrever um testamento, então, só para resumir, desde sexta-feira (dia 14.11.2009), quando o técnico fez a mudança da Oi para GVT, ficamos 3 dias sem internet, ou seja, até ontem, terça-feira, e quando ontem depois de comprar modem novo (e caro - a GVT possui apenas um modelo de modem cabo/wireless homologado) adaptável à GVT e conseguir liberar a internet, bloquearam nossa linha telefônica e estamos há 2 dias sem telefone para receber ou fazer ligações. Apenas cerca de uma hora atrás (dia 19.11, por volta das 10 hs da manhã) um técnico conseguiu detectar o problema: falta de xerox de documentos para atualização de cadastro. Atualização de cadastro??? A linha foi instalada há 5 dias !!!!

Depois de perder toda a paciência que me restava e tentar de toda forma restabelecer a linha para que eu consiga fazer reservas de hotel em Recife, resolver problemas da viagem, etc, informaram que ou eu teria que ir na unidade GVT em BH, que fica no bairro Estoril, do outro lado da cidade no extremo oposto de onde moro, ou teria que enviar um fax com os documentos. Larguei tudo que estava fazendo e saí à caça de um fax no meu bairro (não aceitam e-mail). Passei o bendito fax e quando liguei para a GVT para fazer o desbloqueio da linha, disseram que terei que esperar até o final do dia para autenticação do fax recebido... Nestes cinco dias foram mais de 100 ligações para a GVT, ora com um problema, ora com outro.

Enfim, estou abrindo uma campanha "Odeio a GVT". E o pior: para cancelar o plano que está comigo há 5 dias e que não funcionou direito desde então e que eu definitivamente não quero mais, terei que pagar uma multa de R$ 200,00.

Portanto, meu amigo, se você está com a Oi-Velox, continue com ela, pague mais caro mas não tenha dor de cabeça. Eu tive Oi-Velox por 3 anos e nunca tive qualquer problema.

É isto, estou indo ali usar um orelhão.

P.s.: consegui falar com a atendente e ela disse que o fax chegou ilegível, que é impossível avaliar os documentos e me mandou procurar outro fax para passar. O que não vou fazer, vou cancelar. Se você tinha dúvidas, ainda quer mudar para GVT?

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

da janela

Para ir me acostumando com a paisagem 'da janela' a partir da próxima semana. Belo Horizonte vai me ver de novo só no Natal... Fotografia de Olinda - PE.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A casa da gente









- Quero me certificar de que as palavras chegarão às pessoas certas.

- Vá para casa... e viva.

- Mas eu não tenho casa, Tim. Tessa era minha casa.
.

domingo, 18 de outubro de 2009

Um Neruda uma flor um violão

Tarsila do Amaral. Academia nº 4, 1922

Podrán cortar todas las flores,
Pero no podrán detener la primavera.

Pablo Neruda

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo Neruda

sábado, 17 de outubro de 2009

Estradas


Estrada no Quilombo do Curiaú - Macapá/AP Estrada em Cabeça de Boi - Itambé /MG
Fotos minhas em setembro e outubro de 2009

Desde o início de setembro estou na estrada.
Belo Horizonte x Macapá x Belém x Campinas x Belo Horizonte x Campinas x Belo Horizonte x Rio de Janeiro. Dia destes eu volto.

Enquanto isto, recomendo o filme "A vida secreta das palavras", lindo de sentir e uma trilha sonora deliciosa!


SE
Rudyard Kipling

Se és capaz de manter tua calma quando
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,
de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores
.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida
.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!


Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.

E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal
todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!

Tradução de Guilherme de Almeida

domingo, 4 de outubro de 2009

Marcovaldo ou as estações da cidade

Fotografia Peterson Barbosa. Fortaleza - set. 2009

Porque estou me sentindo um Marcovaldo, perdida “numa metrópole industrial qualquer, abstrata e típica”.

"Marcovaldo tinha um olho pouco adequado para a vida da cidade: avisos, semáforos, vitrines, letreiros luminosos, cartazes, por mais estudados que fossem para atrair a atenção, jamais detinham seu olhar, que parecia perder-se nas areias do deserto. Já uma folha amarelada num ramo, uma pena que se deixasse prender numa tela, não lhe escapavam nunca: não havia mosca no dorso de um cavalo, buraco de cupim numa mesa, casca de figo se desfazendo na calçada que Marcovaldo não observasse e comentasse, descobrindo as mudanças da estação, seus desejos mais íntimos e as misérias de sua existência."

“Inclinou-se para amarrar o sapato e observou melhor: eram cogumelos, cogumelos de verdade, que estavam rompendo a terra bem no coração da cidade! Marcovaldo teve a impressão de que o mundo cinzento e miserável que o circundava se tornava de repente generoso em riquezas escondidas e que ainda se podia esperar alguma coisa da vida, além das horas pagas pelo salário contratual, da compensação de perdas, do salário-família e da carestia.

“- E onde estão esses cogumelos? – perguntaram as crianças. – Diga-nos onde estão crescendo!

Diante de tal pergunta, o entusiasmo de Marcovaldo foi refreado por uma suspeita: “Se lhes disser onde estão, vão procurá-los com um dos costumeiros bandos de moleques, corre a notícia pelo bairro, e os cogumelos terminam na panela dos outros!” Assim, aquela descoberta que de repente lhe enchera o coração de amor universal, agora lhe acendia a obsessão da posse, cercava-o de temor ciumento e desconfiado.”

"De manhã, saiu para caminhar no centro. As ruas abriam-se largas e intermináveis, vazias de carros e desertas; as fachadas das casas, da sebe cinzenta das portas de correr abaixadas até as infinitas varetas de aço, estavam fechadas como anteparos de fortificações. Marcovaldo sonhara o ano inteiro em poder usar as ruas como ruas, isto é, caminhar no meio delas: agora podia fazê-lo".

[Fragmentos do livro Marcovaldo ou as Estações na Cidade, de Ítalo Calvino]

Como estou assim muito Ítalo-Calviniana hoje, penso que

"— De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas. — Ou as perguntas que nos colocamos para nos obrigar a responder, como Tebas na boca da Esfinge."

Ou aquela máxima que ele coloca na fala do Marco Polo: quando se conhece uma cidade, conhece-se todas as outras cidades.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Incentivo

Foi totalmente motivador o aviso do diretor de um acervo em que estou pesquisando e que terei que pesquisar a próxima semana inteira. Ele disse para eu tomar cuidado com a tuberculose e a sífilis, porque estes bacilos sobrevivem até 200 anos entre os documentos e relatou que ele próprio já pegou várias doenças trabalhando com a documentação que vai do século XVII ao XX. Foi animador o aviso dele, sabe?!

***

E eu que nem estava empolgada com a candidatura do Rio de Janeiro para as Olimpíadas de 2016, estava calmamente levantando o acervo da Biblioteca Pública de Belém quando um funcionário adentrou a sala gritando: "o Rio ganhou, o Rio ganhou" e se abraçou a outra funcionária que saiu dançando e cantando "viva o Lula, viva o Lula" (?!). E outros vieram se juntando a eles. Confesso que fiquei até animada vendo a emoção e a animação deles.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Belém do Pará

Estou em Belém desde domingo (27/09), mas ando cansada demais para relatar o que tenho observado e vivenciado por aqui. Falarei rapidamente e vou colocar umas imagens de coisas interessantes que vi.

Gostei de Belém, principalmente da arquitetura da cidade que é muito interessante. A cidade inteira mescla o antigo e o novo e muitas vezes descendo pelas vielas tenho a sensação de estar em Salvador. De repente, no meio de um dos inúmeros becos me deparo com uma igreja barroca exuberante ao lado de casas ecléticas, modernas, casebres, etc.

Mas a pobreza da cidade é que o grita aos olhos e causa uma sensação ininterrupta de insegurança. Caminho olhando para todos os lados, amedrontada. Pedintes e mendigos aparecem constantemente abordando para pedir dinheiro, comida e outros. Estou até começando a acostumar que quando parar no ponto de ônibus virão uns 3, 4 pedir dinheiro.

Outro dia, voltando das pesquisas, parei numa lanchonete próxima ao hotel para fazer um lanche rápido ao final de um dia intenso de trabalho e aconteceu algo extremamente constrangedor. Na mesa ao meu lado tinha um casal também fazendo um lanche, quando o casal levantou um rapaz imundo e nitidamente drogado apareceu do nada, sentou-se na mesa e começou a comer os restos do casal. Foi uma cena horrível. Parecia um animal assustado fuçando o lixo, comendo com as mãos imundas e olhando para os lados com raiva. Não sabia se eu saía, se ficava, se continuava comendo, se parava. Constrangedor.

Num outro bairro da cidade, voltando da UFPA, vi um canal fétido correndo a céu aberto por onde passa o esgoto, as pessoas jogam lixo e moram ali do lado dele. Em alguns pontos deste canal há tapumes de madeira, como as que tem nas palafitas, e por cima do canal as pessoas moram e vendem comidas. No canal, há muito lixo entulhado também. Fiquei pensando quem teria coragem de comer naqueles ‘restaurantes’ ao lado do esgoto. Claro, as pessoas que vivem ali. Aliás, Belém é uma cidade suja, muito suja. As pessoas jogam o lixo nas ruas despudoradamente. Outro dia encontrei o historiador Serge Gruzinski numa palestra e conversando com ele sobre Belém, ele disse que acontece aqui um mundo à parte, como se nada que acontecesse no resto do Brasil interferisse em Belém e vice e versa. Práticas do século XIX, como esta questão da falta de higiene, convivem ao lado de outras completamente antenadas com o século XXI.

Outro fato que tem me feito pensar seriamente é que devo ter um carma a purgar em relação a grandes festas populares. Em março estava em Salvador justamente antes do Carnaval. A cidade estava uma loucura, com gente, engarrafamentos, só se falava, pensava e respirava Carnaval. Os locais de pesquisa fecharam uma semana antes do Carnaval e o que não fechou, como o Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, a diretora viajou e levou a chave do acervo iconográfico que eu tinha ido justamente pesquisar. Pois bem, aconteceu de novo. Estou em Belém exatamente antes do Círio de Nazaré. Os engarrafamentos são quilométricos. Hoje parte dos funcionários públicos foram dispensados para participar do início das celebrações do Círio e o atendimento nos acervos estava lento quase parando. Não sei como será na próxima semana para as pesquisas. Só se fala em Círio por aqui. A imagem da Santa está em todos os estabelecimentos, em todas as bibliotecas, em todos os arquivos. Uma loucura, parece Salvador antes do Carnaval... Bom, e eu detesto estes agrupamentos que deixam a cidade cheia, nervosa, os hotéis e restaurantes com preços exorbitantes. Deve ser carma, só pode.

Vale, ainda, um aviso aos pesquisadores de plantão: na biblioteca do Museu Emilio Goeldi – Campus Pesquisa não tem ar condicionado, mas já teve um dia, então, as janelas são lacradas. O lugar parece uma sauna, o suor escorre por dentro da roupa e das luvas e para beber água tem que dar a volta do lado de fora do prédio e ir para o outro bloco. Ao contrário, no Arquivo Público do Pará faz um frio danado! Saí de lá hoje com os dedos das mãos com câimbra e roxos. Amanhã levo blusa de frio para conseguir pesquisar. O acervo do APEP – Arquivo Público Estadual do Pará é imenso e a edificação e as prateleiras lindas. Seguramente é um dos arquivos mais bonitos em que pesquisei.

Pelo tamanho do meu cansaço hoje escrevi muito mais que esperava. Queria contar da exposição do corpo das moças daqui, mas estou esgotada, fica para outro dia. Vamos às imagens interessantes.

Deparei-me com este curioso aviso no banheiro feminino da Biblioteca Pública de Belém. Será que as moçoilas lavam os seu cabelos com aquele sabonetinho que fica ao lado da pia?


E encontrei este relato curioso nos Anais do Arquivo Público de Belém, a respeito dos índios que deveriam ser aprisionados no século XVII. Eles tinham duas escolhas: ou iam por bem ou iam por mal. Vejam.


E este é ainda mais curioso. Diz que uma índia teria vivido 200 anos! Esta imagem foi digitalizada do Ensaio Corográfico sobre a Província do Pará, escrito por Antonio Ladislau Monteiro Baena, em 1839. Em outros documentos li que muitos índios viviam até os 120 anos. Que coisa interessante.


p.s.: Vivi, se tiver erros no texto, por favor me avise!

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Equinócio da primavera


O Equinócio da Primavera aconteceu hoje, exatamente às 18:18.
Eu estava lá, no Marco Zero da Linha imaginária do Equador, em Macapá.
Os povos antigos, os druidas e celtas, tinham uma relação mística com os equinócios e os solstícios, quando acontecem as mudanças de estações. Com ou sem misticismo, estava lá e senti um arrepio quando o narrador anunciou a entrada da primavera. Logo depois que o sol se pôs majestosamente a noite caiu e uma bela lua deixou-se ver no céu.

domingo, 20 de setembro de 2009

Aventuras no Amapá

Quando era criança, minha mãe contava a história de uma professora do seu tempo de adolescente que era chamada pelo codinome de DDD. Ela era considerada "doida" na pequena cidade onde cresci porque era intelectual e lia muito. E, porque lia muito, não se prendia aos padrões de comportamento social de uma cidade pequena do interior de Minas, onde a fofoca e as maldadezinhas cotidianas se fazem constantes - foi o que deduzi anos mais tarde. Minha mãe temia que eu ficasse doida também, já que lia bastante, e contava sobre esta antiga professora para eu parar de ler e ir ajudar nos afazeres domésticos.

Na contramão, eu continuei lendo sempre e muito. Hoje lembrei-me desta história e da minha mãe dizendo em diversas ocasiões vida afora: “você é doida, Cristiane”. Minhas irmãs também me acham meio maluca. Poderia estar em cima de um salto alto trabalhando para uma grande multinacional, com um carro estacionado na garagem de um prédio onde, talvez, morasse num apartamento meu. Mas eu escolhi – sim, é uma escolha deliberada – abrir mão destes desejos ‘pequeno burguês’ e estou bem aqui no meio do mundo, num estado brasileiro que muita gente nem sabe que existe, cercada por todos os lados de rios enormes e pela floresta amazônica – e feliz da vida fazendo o que gosto.

Mas foi numa aventura vivenciada neste final de semana que lembrei destas histórias todas e fiquei me perguntando se eu, de fato, não sou mesmo meio maluca. Como todos já sabem, estou no Amapá e como curiosa nata (no lugar de pés, devo ter nascido com asas) tentei, tentei e tentei conseguir uma programação para o final de semana que fosse segura, mas que me levasse para conhecer as inúmeras belezas naturais do estado, mas foi tudo em vão, não existe turismo dentro do estado do Amapá (falarei sobre isto com detalhes depois que for embora daqui, me aguardem). No sábado, conheci dois paraenses que estavam hospedados no mesmo hotel que eu e que me levaram para conhecer alguns lugares interessantes de Macapá, como a Fazendinha, que é bem parecida com uma praia, lá o rio Amazonas faz até umas ondinhas e a brisa e o barulho lembram muito o litoral. No lugar, comi o mais delicioso camarão no bafo que se pode fazer. É um lugar bem gostoso para ir para quem estiver por aqui.

Domingo seria um dia sem programação alguma. Um tanto quanto irritada com esta carência de turismo interno, saí do hotel por volta das 9:50 de chinelos havainas, bermuda, camiseta, o celular e um pouco de dinheiro no bolso para uma caminhada na orla do rio Amazonas. No trajeto, vi passar uma van com uma plaquinha: Macapá – Mazagão e pensei: é isto que vou fazer hoje! Lembrei que o pessoal do IPHAN havia dito sobre esta van e indicado este passeio. Corri até o estacionamento onde a van havia parado, fiz algumas perguntas ao motorista e parti com a van rumo à cidade de Mazagão. Como medida de segurança, assim que a van partiu de Macapá liguei para o meu marido junto com o motorista e informei para onde estava indo, o veículo que me levava e o nome do motorista, porque se acontecesse alguma coisa comigo ele saberia onde procurar e também para que o motorista soubesse que havia outra pessoa sabendo do meu paradeiro. Nunca se sabe. E lá fui eu, sozinha, para o interior do estado.

Para chegar a Mazagão é necessário cruzar dois rios de balsa: o Rio Matapi e o Vila Nova. Para mim que estava ‘desvendando’ o Amapá, achei super legal cruzar aqueles rios enormes com média de 11 metros de profundidade em cima de uma balsa, mas para quem precisa fazer o trajeto constantemente é muito cansativo. No trajeto, vi criações de búfalos, plantações de açaí, famílias ribeirinhas, muitas casas de madeira em cima de palafitas, conversei com crianças e moradores locais, além de ver de perto a floresta e os rios.

A viagem de ida foi ótima. O motorista da van, o sr. Lôro, como ele mesmo me disse que se chamava, foi um exímio guia de viagem, conversou o tempo inteiro e ia me apontando tudo. Ele que é de Santa Catarina, mas que mora no Amapá há 20 anos, foi me contando as histórias do lugar, mostrando as paisagens e, em uma das balsas, me fez saltar da balsa propriamente dita para o barco que fica acoplado à balsa e subir até a cabine do comandante para ver a paisagem lá do alto.

Bom, mas ao chegar a Mazagão por volta das 11:50 (tínhamos saído de Macapá às 10:00 exatamente), a van que sairia de volta para Macapá ao meio dia e que eu pretendia retornar nela, já tinha voltado. Eu teria que esperar sozinha até a próxima van, que sairia por volta das 14 horas. Quando o sr. Lôro partiu do ponto final, me deixando sozinha ali naquela cidade paupérrima e desconhecida, literalmente no meio do mundo, senti um frio na barriga. Olhei o celular e não tinha sinal. Foi neste momento de medo momentâneo que lembrei destas histórias que contei acima e fiquei me perguntando se eu, de fato, não seria mesmo maluca de sair sozinha, para o interior do estado, sem conhecer viv’alma. Se me acontecesse alguma coisa de ruim naquele ermo de mundo, dificilmente alguém daria conta disto, a não ser meu marido que está há mais de dois mil quilômetros de distância. Estava como naquela música “Deus e eu no sertão”. O interior do estado é conhecido como uma terra sem lei. Grande parte das pessoas que encontrei no caminho eram homens, vi poucas mulheres ou crianças no trajeto e na própria cidade de Mazagão. Como não tinha mesmo o que fazer a não ser esperar a próxima van, saí caminhando e fotografando a cidade. Conversei com alguns moradores locais, vi uma igrejinha linda da primeira metade do século XX que está abandonada, além da prefeitura instalada numa edificação relativamente antiga e quando estava indo comer alguma coisa, vi uma outra van passar na rua, saí correndo atrás dela balançando os braços, o motorista parou e perguntei se estava indo para Macapá, ele disse que sim e eu retornei com ele.

No caminho, ouvindo a conversa do motorista com outro homem que estava na van, soube que aquele era um transporte ‘não oficial’ e que o motorista que tinha sido denunciado, teria que resolver a situação da ilegalidade do transporte ainda esta semana. Esta foi uma parte ruim, porque voltei calada, com medo da van ser parada em alguma blitz (o que seria pouco provável) ou algo parecido e novamente fiquei pensando em como é complicado ser mulher e estar sozinha em situações como esta, por mais que digam o contrário uma mulher viajando sozinha nunca terá a mesma segurança que um homem – pelo menos não no Brasil. A parte boa, foi que o trajeto da van era diferente, passava pelo município de Santana e pelo Igarapé da Fortaleza, que eram outros locais que eu queria conhecer. No final deu tudo certo, cheguei de volta a Macapá por volta das 14 horas e no final da tarde ainda deu tempo de ver a maré cheia do rio Amazonas se arrebentando contra a mureta e o lindo pôr do sol do trapiche e da Fortaleza de São José.

Muito mais do que apenas conhecer pela aventura do lugar novo, eu vejo estas experiências de entrar em contato com o povo do lugar onde estou, de conhecer as suas dificuldades e hábitos diários, ouvir os sotaques, ver onde moram e o que comem, como parte do meu trabalho de pesquisadora. Tenho consciência que nunca vou ser uma historiadora de gabinete apenas. O campo é que faz meu coração bater mais forte. E são estas experiências que faz com que os meus textos tenham ‘alma’ e são elas que darão sentido a muitos dos levantamentos realizados nos acervos e museus que visitei em Macapá. Os ‘causos’ que escuto, a própria paisagem que vejo, os sons, os cheiros, os ofícios mostram de fato o que é a identidade deste povo e o que é construído pelos políticos e pela mídia.

No fundo, eu devo ser mesmo muito maluca, porque enquanto reportagens mostram as engenharias feitas pelas cidades como alternativas para guardar os veículos que se multiplicam assustadoramente, eu me pergunto porque as pessoas não param de fabricar carros e de fazer filhos que superlotam este mundo que está ficando pequeno para tanta gente e seus carros cuspidores de poluição.


A balsa atravessando o Rio Matapi e casinhas e 'estabelecimentos' comerciais em Mazagão

A Igrejinha de São Raimundo, em Mazagão
O Sr. Loro e o Rio Matapi que atravessamos de balsa

Crianças ribeirinhas às margens do Rio Matapi

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Arght!

Não vou contar nada hoje, apesar de estar repleta de tantas histórias, mas estou cansada.

Vim para deixar registrado que ODEIO o trânsito de Macapá. É uma falta de respeito com os pedestres. Além de não existir sinalização que beneficie o pedestre, os motoristas são muito mal educados. É impressionante! Para atravessar as avenidas e cruzamentos o pedestre tem que correr muito, senão é atropelado. Repito: eu ODEIO o trânsito de Macapá e se eu for atropelada aqui (o que não será de espantar) que alguém processe o estado pelo tamanho descaso com o pedestre. Pronto falei!


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Macapá - parte II


Orla do Rio Amazonas com praticantes do kitesurf e o tacacá
Sorvete de Graviola e Açaí e, do lado, uma urna funerária feminina
A fachada do Museu Joaquim Caetano e as canoas expostas dentro dele.

Lembrei-me de um sonho antigo. Na adolescência sonhava em morar num daqueles trailers ou ônibus dos filmes americanos. Assim, não precisaria ter uma residência fixa, de tempos em tempos eu deslocaria o meu trailer para lugares diferentes e conheceria muitos lugares, cada época numa cidade ou país diferente. Naquele tempo, em que a internet não era acessível como é hoje, sonhava em ter um emprego em que não precisasse estar fisicamente num lugar para trabalhar, bater cartão, etc. Hoje isto é totalmente possível com as tecnologias. Não moro num trailer, mas o trabalho que faço hoje me possibilita conhecer vários lugares e, principalmente, a cultura do lugar onde vou realizar pesquisas. Eu adoro o meu trabalho! Tenho consciência que não posso fazer isto para sempre, por causa da instabilidade e do salário, mas no momento sinto-me muito feliz em fazer o que gosto.

Minhas pesquisas levaram-me hoje para uma outra parte da cidade de Macapá. Uma parte mais urbanizada e bonita. Deixei de ter a impressão de que Macapá era parecida com um bairro pobre de Belo Horizonte. Não é. A região onde estou hospedada é que é mais feia, menos urbanizada e com canais fétidos de esgoto a céu aberto.

Tenho gostado de estar aqui. O povo é muito gentil e sempre pronto a prestar informações e ajudar no que for necessário. O sotaque dos nativos é uma mistura dos sotaques carioca e gaúcho. Eles dizem assim: “Tu sabex?”, “Tu estás goxtando?”, “Aonde tu vaix”. Eles sempre usam o ‘tu’ ao invés de você, mas com o sotaque carioca. A lenda do boto é levada muito a sério pelo povo daqui, tanto que a carne dele não é consumida de maneira alguma pelas comunidades locais. O boto é considerado um ser mítico e um tanto quanto sagrado. As pessoas riem das histórias do boto que vira homem e seduz as mulheres – principalmente as virgens, mas ninguém também desacredita que isto possa acontecer.

A questão da locomoção na cidade ainda é um fato que não acostumei. Quase fui atropelada por uma moto ontem. A ausência de semáforos nos cruzamentos deixa os pedestres malucos, lembro sempre daquelas imagens que passam de cidades da Índia onde o transito é um caos. Não chega a tanto, mas é parecido. Não vejo muitas bicicletas por aqui, apesar da cidade ser totalmente plana e tudo ser relativamente perto, todavia motos têm de sobra! Inclusive, a modalidade de transporte muito utilizada é o ‘moto táxi’, em que as pessoas vão nas garupas dos motoqueiros. A cidade tem muitos carros também.

Para o meu pavor, a música mais ouvida por aqui é o forró lambada, tipo “Aviões do Forró”, “Mastruz com Leite”, “Calypso” e outras bandas que eu desconheço o nome. Alguém, por favor, avise a Vanessa da Mata que um grupo destes de forró lambada assassinou a música dela e do Ben Harper “Boa Sorte / Good Luck”. Nas partes em inglês em que o Ben Harper canta, a cantora da banda diz apenas: “Valeu, valeu, valeu” e um tal de ‘rum, rum, rum’. Em outras partes da música também ela mudou a letra, substituiu por outras palavras ‘parecidas’, mas que não tem a ver a música. Um horror. Saudade das músicas eruditas tocadas nos ônibus de Curitiba.

Experimentei o tacacá, que é preparado com um caldo fino de cor amarelada chamado tucupi, sobre o qual se coloca goma (de mandioca), camarão e as folhas de jambu. Serve-se quente, temperado com sal e pimenta, em cuias. O sabor não é desagradável, mas como nunca tinha experimentado algo parecido não agradou muito ao paladar. Experimentei, ainda, sorvete de açaí e de graviola, feitos diretamente das frutas. Muito bom. Não é barato para os padrões locais: R$ 3,00 a bola, mas vale a pena. Falta ainda experimentar a maniçoba, o vatapá (eles disseram que é bem diferente do vatapá baiano) e o pato no tucupi.

Os restaurantes existentes (que são poucos) não cobram barato pelas refeições como eu esperava que fosse, mas é bem saborosa a culinária daqui. As diárias dos hotéis também não são baratas.

Um fato curioso que aconteceu hoje foi que um pesquisador e historiador local me mostrou os rascunhos de seu novo livro a ser publicado no início do próximo ano. Ao ler o título, percebi que era bem parecido com os outros títulos de seus quatro livros anteriores, que eu já havia visto ontem em outro local de pesquisa, sugeri então que ele utilizasse outro título, que tivesse mais a ver com o trabalho a ser publicado, um título diferente, mais instigante e menos convencional. Ele concordou e disse que vai acatar a idéia.

Outra coisa muitíssimo interessante que vi foram as urnas funerárias utilizadas pelos índios entre os séculos XIII a XVI. Eram confeccionadas urnas funerárias diferenciadas para homens e mulheres, os órgãos genitais femininos e masculinos ficavam expostos em desenhos do lado de fora da urna. Estas peças estão expostas no Museu Histórico do Amapá Joaquim Caetano, onde tem também canoas enormes usadas pelos índios e comunidade ribeirinhas.

A cidade esta semana está lotada, tentei trocar de hotel por causa do cheiro terrível de mofo que tem me causado uma dor de cabeça chata, mas não consegui, os hotéis centrais a preços razoáveis estão cheios. Nem no próprio hotel em que estou há mais vagas para sequer mudar de quarto. Imagino que esta situação se inverterá no final de semana. Falando no final de semana, descobri pelo menos quatro opções de locais onde ir e coisas a se fazer, vamos ver qual escolherei.

A internet em Macapá é bastante lenta, mais lenta do que internet discada. Precisei hoje baixar umas fichas no IPHAN local e não conseguimos. Disseram-me que há um projeto do governo de trazer internet por fibra ótica da Guiana Francesa, mas é apenas um projeto.

Outro fato curioso é a relação do povo da daqui com o ‘bigodon’ do Sarney. Eles têm um misto de medo e indiferença. Sempre que cito o imoral Senador, eles dão um sorriso amarelo, abaixam a cabeça e mudam de assunto. Ninguém comenta nada. Uma única pessoa me contou como o fatídico Senador conseguiu candidatar-se pelo estado, sem ser natural daqui e nem morar no Amapá. Coisas de conchavos políticos com o antigo governador local que tinha muita influência na época da criação do estado do Amapá, em 1988 (antes desta data era Território Federal do Amapá). Mas nem este senhor teceu mais comentários. Quando perguntei do ‘Fora Sarney’ que ocorreu pelo Brasil afora e também aqui, pelo que li na internet, todo mundo ouviu dizer, mas ninguém diz ter participado.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Macapá

Fotografias de Macapá em: http://www.flickr.com/photos/cristianemaria/


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Amapá


Estou no Amapá, na capital Macapá. Aqui é quente, muito quente. De um calor diferente do de Sergipe, o calor gruda na pele, fica pegajoso, estranho.

Macapá é uma cidade cercada pelas águas do Rio Amazonas e pela Floresta. Os acessos são feitos somente por avião ou ‘navio’. As embarcações que são chamadas de ‘navio’ levam 24 horas para chegar a Belém (minha próxima parada daqui umas semanas), mas eu vou de avião, óbvio.

O estranho foi que cheguei aqui e não me assustei com nada. Isto é o efeito da televisão, da internet. Foi como chegar num lugar esperado, com paisagens esperadas, com a pobreza esperada... é exatamente como mostram programas como “Expedições”, da Paula Saldanha, que eu adoro! As comunidades ribeirinhas, o desmatamento da floresta, o esgoto no rio, o lixo nas ruas, tudo no lugar onde não deveria estar.

O Rio Amazonas é majestoso, parece mar. Os nossos Rios Jequitinhonha e São Francisco parecem um riacho perto dele. É lindíssimo ver o rio serpenteando no meio da floresta, um mar verde cortado pelas águas barrentas do lendário Amazonas. É meio mágico.

Percebi que as mulheres daqui têm as sobrancelhas fininhas, só um fio de cabelos acima dos olhos. Muitos carros off-road circulam pelas ruas, creio que são dos inúmeros funcionários públicos que vem para o Estado. Praticamente não existem semáforos e nem faixas de pedestre. Um caos atravessar as ruas de Macapá.

No final de semana gostaria de ir a Oiapoque de onde se faz a travessia para a Guiana Francesa, mas não existem agências de turismo aqui. Estou preocupada com o final de semana... Não existe mercado, feiras ou lugares ‘turísticos’ para ir. Vamos ver se até sexta-feira eu descubro, se descobrir, conto para vocês.

Por hoje será só isto, minha cabeça está doendo terrivelmente, creio que por causa das pouco mais de 3 horas dormidas nesta última noite.

Só mais uma coisa que lembrei, hoje de manhãzinha em Brasília, tinha um engarrafamento de quilômetros na entrada da cidade. Os carros vistos de cima pareciam peças de brinquedos parados na pista. Os caminhões eram como legos coloridos. Fiquei pensando olhando aquele transito infernal antes das 08 horas da manhã de uma segunda-feira, todo mundo querendo ir para o mesmo lugar com seus belos automóveis, não pude deixar de lamentar como o ser o humano é ridículo. Ele arruma mordaças e labirintos para si próprio se prender e perder.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Imagens palavras


Vou deixar que a poesia das imagens dos últimos dias fale por mim.
Eu tive que ir, porque precisava de chão.
(uma parte dos posts da última semana foram programados para entrar enquanto eu andava longe)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

L'éternel printemps

Auguste Rodin, Eterna Primavera, 1884

Se você estivesse aqui certamente diria: “Sua pipoqueira! Nunca vi ninguém comer tanta pipoca como você” ao qual eu retrucaria: “Seu exagerado! Para quê comprar tanta banana? Não vê que eu tenho só uma boca? Agora vou ter que jogar bananas fora, antes que estes bichinhos inconvenientes me arrastem para fora de casa”.

Ah, claro que você ia jogar na minha cara que eu comi inteiro o seu Diamante Negro. Pronto, agora você já sabe, comi todo o seu Diamante Negro! A barra inteirinha.

Será que você não percebe que eu tenho mergulhado nas lembranças quando queria apenas me perder no seu corpo quente? Refazer os caminhos tão conhecidos, me afogar no silêncio da sua boca, nos labirintos do seu sossego.

Que a sua ausência não se prolongue demais, meu belo ausente, porque estou tecendo uma colcha enorme, como fez Penélope, de um outro mundo possível longe das suas entranhas. Volte, amado meu.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Orfeu

Auguste Rodin, La méditation.

Entre o meu desejo e o seu ficou alguma coisa meio inacabada, que não era o jeito e a vontade nem de um, nem de outro. Também da minha parte tive que adequar o seu futebol e as viagens sempre repetidas nos feriados.

Naquilo que cedi e no que você cedeu, chegamos num meio termo estranho para ambos – possível.

E foi quando se distanciou demais que consegui vê-lo inteiro, completo, surgindo enorme na minha lembrança. Naquele contorno – desenho que se via inteiro – eu enxerguei o homem que era. Gostei mais da sua forma acabada do que dos fragmentos do dia-a-dia. E pude amá-lo inteiramente sem reservas ou condições. Amor de entrega não espera cumplicidade – ama tão somente.

De Perseu herói intocável e perfeito, eu te vi Orfeu, humanamente transportado de Hades para a vida com as mãos vazias e mortais, como as minhas. O grão arroz de cada dia teria a partir de então um sabor doce de raiz.